Criptografia pós-quântica e o prazo de 2029 do Google: o que a PME faz
Sua empresa não precisa trocar sistemas às pressas, mas precisa começar a mapear onde usa criptografia. Dados roubados hoje podem ser lidos no futuro por um computador quântico. O primeiro passo é um inventário de sistemas, certificados e fornecedores, seguido de atualização de servidores e perguntas diretas aos fornecedores sobre o plano de migração.
O que o Google anunciou sobre 2029?
Em 25 de março de 2026, o Google publicou que vai concluir a migração dos próprios sistemas para criptografia pós-quântica até 2029. O texto, assinado pela vice-presidente de engenharia de segurança Heather Adkins e pela engenheira de criptografia Sophie Schmieg, atribui a decisão aos avanços em hardware quântico, em correção de erros e nas estimativas de quanto poder de computação seria preciso para quebrar a criptografia atual. O Google também recomenda que outras equipes de engenharia sigam o mesmo caminho, segundo o anúncio no blog da empresa.
A data é uma meta do próprio Google. Nenhuma lei ou norma brasileira impõe esse prazo à sua empresa. O anúncio serve como sinal de que grandes fornecedores de tecnologia já estão mudando, e os produtos que a sua empresa usa vão mudar junto.
Por que um computador quântico ameaça a criptografia que uso hoje?
Boa parte da internet protege conexões e assinaturas com algoritmos como RSA e curvas elípticas. A segurança deles depende de problemas matemáticos que um computador comum levaria tempo impraticável para resolver. Um computador quântico grande o bastante resolveria esses problemas específicos muito mais depressa. Ainda não existe um capaz disso, mas ninguém consegue garantir quando vai existir.
O risco tem duas partes, e o próprio Google as separa:
- Sigilo dos dados. O Google diz que a ameaça à criptografia já é atual por causa dos ataques do tipo "guardar agora, decifrar depois". O criminoso copia hoje uma comunicação cifrada e espera o dia em que puder abri-la. Contratos, dados de clientes e segredos comerciais que precisam ficar protegidos por muitos anos são os mais expostos.
- Assinaturas digitais. Certificados de sites, atualizações de software e documentos assinados só ficam em risco quando o computador quântico existir. A troca precisa estar pronta antes disso.
O que o NIST já padronizou?
Em 13 de agosto de 2024, o NIST, instituto de padrões dos Estados Unidos, publicou os três primeiros padrões de criptografia pós-quântica, conforme o comunicado oficial do NIST:
- FIPS 203 (ML-KEM), antes chamado CRYSTALS-Kyber, para cifrar e combinar chaves em conexões.
- FIPS 204 (ML-DSA), antes CRYSTALS-Dilithium, para assinaturas digitais.
- FIPS 205 (SLH-DSA), antes SPHINCS+, também para assinaturas, como alternativa de reserva com matemática diferente.
No mesmo comunicado, o NIST incentiva os administradores de sistemas a começar a integrar esses padrões imediatamente, porque a migração completa leva tempo. Os nomes antigos ainda aparecem em muitos textos. Na hora de conversar com fornecedores, use os nomes atuais.
Minha empresa já usa algo pós-quântico sem saber?
Provavelmente sim, nas conexões de navegador. Segundo a documentação da Cloudflare, a troca de chaves híbrida X25519MLKEM768 é padrão no Chrome e no Edge desde a versão 131, no Firefox desktop desde a 132 e no Safari desde a 26. Híbrida quer dizer que ela combina o método clássico com o ML-KEM: se um dos dois falhar, o outro ainda protege a conexão.
O mesmo vale para o acesso remoto a servidores. O OpenSSH 10.0, lançado em 9 de abril de 2025, passou a usar por padrão o algoritmo híbrido mlkem768x25519-sha256 na negociação de chaves.
Por isso, boa parte da migração da sua empresa vai ser manter o software atualizado. O problema está no que ficou parado: servidor antigo, equipamento de rede sem atualização, sistema legado que só fala RSA, integração com parceiro feita anos atrás.
Por onde a PME começa o inventário de criptografia?
A ficha de prontidão quântica publicada em agosto de 2023 pela CISA, pela NSA e pelo NIST recomenda quatro frentes: montar um roteiro, inventariar a criptografia em uso, avaliar a cadeia de fornecedores e conversar com os fornecedores de tecnologia. Na pequena empresa, isso cabe em uma planilha:
- Sistemas expostos à internet. Site, loja virtual, e-mail, VPN (rede privada virtual), acesso remoto. Anote o software e a versão de cada um.
- Certificados digitais. Certificados de site, certificados usados por sistemas internos e certificados de assinatura de documentos. Anote quem emitiu e quando vencem.
- Dados de longa duração. Backups, arquivos de clientes e contratos que precisam ficar sigilosos por muitos anos. São os primeiros candidatos à proteção extra.
- Fornecedores. ERP, sistema de nota fiscal, banco, nuvem, firewall, telefonia. Pergunte por escrito: vocês já suportam ML-KEM ou ML-DSA? Qual é o plano e o prazo de migração?
- Equipamentos sem atualização. Firewall, roteador e servidores que o fabricante não atualiza mais entram no plano de troca, com ou sem computador quântico.
Com a planilha pronta, a sua empresa sabe onde agir primeiro: atualizar o que já tem suporte, cobrar quem ainda não tem e evitar comprar sistema novo que não tenha plano de migração.
Como sua empresa dá o primeiro passo?
O inventário começa pelos servidores e equipamentos de rede, onde mora a maior parte da criptografia da empresa. No Diagnóstico de máquinas, os analistas da CyberArmor levantam em duas semanas versões de sistema, protocolos e certificados em uso e apontam o que está desatualizado. O serviço de Hardening e conformidade de servidores aplica configurações seguras e deixa os servidores prontos para receber os novos algoritmos quando os fornecedores liberarem. Para montar o seu plano, fale com um especialista.
Fontes
- Quantum frontiers may be closer than they appear, Google, 25/03/2026
- NIST releases first 3 finalized post-quantum encryption standards, NIST, 13/08/2024
- Quantum-readiness: migration to post-quantum cryptography, CISA, NSA e NIST, 21/08/2023
- PQC support, Cloudflare Docs
- OpenSSH 10.0 release notes, OpenSSH, 09/04/2025